Meses atrás houve um acidente numa rua perto de casa, num viaduto que passa sobre as linhas de trem, uma dezena de metros abaixo. Acidente terrível, um carro atingiu a moça e a jogou sobre a cerca para sua morte, onde a encontraram ainda viva. Morreu a caminho do hospital. A polícia deixou um aviso pedindo informações a quem as tivesse. Não sei se chegaram a saber quem era o motorista.
Alguém, imagino a família, colocou flores, de plástico, e um porta-retratos com uma foto da moça, numa parte da cerca que é dessas de arame. Fica no meu caminho para o ponto de ônibus, todos os dias passando pelas flores e pela foto da jovem sorridente.
Com o passar dos meses, exposta ao sol, ao clima, a foto se foi apagando lentamente, se tornando sépia a princípio, rosada, branca, até desaparecer de vez. Um análogo das memórias dela, talvez. Aos poucos esquecida por todos assim como a foto desaparecia. Quem passasse ali após a remoção da placa da polícia poderia somente inferir o ocorrido, sem saber para quem ou o que eram as flores, a moldura exibindo um fundo vazio.
Pensando sozinho nas idas e vindas, não pude deixar de fazer o paralelo com nosso universo vazio e seu inevitável fim, a futilidade de todas as coisas, e estava preparado para escrever algo bem sombrio aqui.
Mas alguém colocou novas fotos no porta-retrato.