quinta-feira, 21 de junho de 2018

Meses atrás houve um acidente numa rua perto de casa, num viaduto que passa sobre as linhas de trem, uma dezena de metros abaixo. Acidente terrível, um carro atingiu a moça e a jogou sobre a cerca para sua morte, onde a encontraram ainda viva. Morreu a caminho do hospital. A polícia deixou um aviso pedindo informações a quem as tivesse. Não sei se chegaram a saber quem era o motorista.

Alguém, imagino a família, colocou flores, de plástico, e um porta-retratos com uma foto da moça, numa parte da cerca que é dessas de arame. Fica no meu caminho para o ponto de ônibus, todos os dias passando pelas flores e pela foto da jovem sorridente.

Com o passar dos meses, exposta ao sol, ao clima, a foto se foi apagando lentamente, se tornando sépia a princípio, rosada, branca, até desaparecer de vez. Um análogo das memórias dela, talvez. Aos poucos esquecida por todos assim como a foto desaparecia. Quem passasse ali após a remoção da placa da polícia poderia somente inferir o ocorrido, sem saber para quem ou o que eram as flores, a moldura exibindo um fundo vazio.

Pensando sozinho nas idas e vindas, não pude deixar de fazer o paralelo com nosso universo vazio e seu inevitável fim, a futilidade de todas as coisas, e estava preparado para escrever algo bem sombrio aqui.

Mas alguém colocou novas fotos no porta-retrato.
 
 

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Começando


Eu fiquei um bom tempo pensando sobre o que escrever nesse blog. Não nessa primeira postagem especificamente, mas no blog como um todo. Arrumei a conta no Blogger, acertei a página, briguei com a falta de nomes de domínio decentes disponíveis após vinte anos de existência do serviço. Isso ao longo de um mês ou mais, e em todo esse tempo pensando no que escrever. Deveria me ater a um tema ou assunto específicos? Às vezes me preocupo escrever algo que tenha uma função certa, num apego meio tolo a um utilitarianismo que talvez não caiba aqui. Penso então em escrever sobre ciência, mas a síndrome de impostor bate imediatamente. Ou escrever sobre política, mas me deparo com meu limitado entendimento por não ser da área e acho que não devo palpitar. Então volto à ideia original que me motivou a fazer um blog, de escrever contos e ficção, mas penso que ninguém vai querer ler isso, ao menos não de alguém que não sabe escrever. E pensando tanto nisso cheguei à solução ideal, que não envolve simplesmente não escrever em um blog público:

Foda-se.

Vou escrever sobre ciência porque sou cientista e às vezes tenho vontade de falar sobre isso.

Vou escrever sobre política porque me importo e me envolvo e quero falar a respeito.

Vou escrever contos e ficção porque gosto.

E vou escrever tudo aqui independente de leitores, porque no fim estou escrevendo mesmo é para mim. Para colocar tudo isso pra fora em algum lugar mais útil que folhas soltas numa gaveta.