No começo do mês, a Capes, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior, uma das entidades responsáveis pelo desenvolvimento científico no Brasil, anunciou que com o atual corte de verbas para o MCTIC serão canceladas até 200 mil bolsas de pós-graduação no ano que vem. Isso me é um assunto muito caro. Primeiro, sou cientista, há dois meses da conclusão do meu doutorado, trabalhando com pesquisa há mais de 6 anos. Segundo, meu doutorado é financiado pelo Ciências Sem Fronteiras, cuja oferta de novas bolsas foi cancelada no ano passado. Aos olhos do governo, eu sou um custo. Onde o governo erra é em não entender que ciência é um investimento.
Dois exemplos para sustentar o argumento. Estima-se que o retorno do investimento (ROI) do programa espacial americano seja de em média 10:1. Ou seja, para cada dólar que o governo americano investiu na NASA para possibilitar uma missão tripulada à Lua, a economia americana recebeu 10 dólares. E o retorno não é puramente financeiro. Embora se possa discutir qual a utilidade imediata, ao cidadão comum, de se colocar uma pessoa na Lua, as tecnologias desenvolvidas para cumprir a missão trouxeram inúmeros benefícios palpáveis. O celular onde você talvez esteja lendo isso, por exemplo, deve muito à tecnologia de comunicação de longa distância derivada do programa espacial. A câmera no mesmo celular contém tecnologia da NASA. Por aí vai.
Segundo exemplo, esse mais perto de casa. A Embrapa calculou uma taxa interna de retorno de 38% em investimento em pesquisa na década de 1980 (rendimento muito melhor que colocar o dinheiro no banco, por exemplo). Uma pesquisa similar da FAPESP encontrou retorno de 12:1 no investimento em pesquisa em agricultura no estado de São Paulo. Novamente, não é só a questão financeira. Graças ao investimento da Embrapa na década de 1980, que montou o que seria as raízes do Ciências Sem Fronteiras ao financiar pós-graduação no exterior para que brasileiros fizessem pesquisa de ponta e voltassem com o conhecimento, o Brasil não só exporta produtos agropecuários para o mundo inteiro, como exporta também tecnologia.
Falta ao Brasil como um todo planejamento de longo prazo. Ciência é investimento, não custo, que exige constância para gerar resultados positivos. Para se tornar competitivo e se desenvolver plenamente, um país tem que investir em desenvolvimento científico e tecnológico. Há certas áreas estratégicas cujo desenvolvimento é de interesse até mesmo de soberania nacional. Que dizer do Brasil hoje ser incapaz de lançar seus próprios satélites e depender de outros países para telecomunicações, essa tecnologia tão essencial na vida atual e cuja importância só tende a aumentar? A indústria espacial, por exemplo, está se aquecendo e se estima que há bilhões ou até trilhões de dólares de retorno em diversos mercados para quem dominar a tecnologia. O programa espacial brasileiro, iniciado em 1961, ainda não concluiu seu objetivo de construir um veículo lançador de satélites, o VLS. O programa do veículo hipersônico 14-X tem um teste de voo planejado para daqui a dois anos - ouço isso há seis anos. Há mal gerenciamento, sim, e uma série de outros problemas que não cabem nesse texto. Mas falta verba e, se mais for cortada, jamais esses projetos sairão do chão. E aqui estou focando apenas na minha área, aeroespacial. Há por aí diversos outros grupos sofrendo da mesma forma.
Mas voltemos à questão do planejamento de longo prazo. Se o governo vê ciência como custo, é uma das primeiras a ter sua verba cortada. E aí vemos as prioridades: na mesma semana do anúncio da Capes, ministros do STF se deram aumento de 16%, aumentando seus salários em cerca de 6 mil reais. Isso é o valor de uma bolsa de pós-doutorado. Pense nisso: um pós-doutor é alguém que passou por uma graduação e pelo menos uma pós-graduação, normalmente duas (mestrado e doutorado). É um profissional altamente qualificado, mas ainda assim depende de bolsa, que não tem qualquer vínculo trabalhista. Detalhe: nem todos os ministros do Supremo são doutores. E esse aumento de 16% vai acarretar um gasto de R$240 milhões ao ano devido aos reajustes que demais servidores recebem baseados no teto do STF. Isso é metade do valor cortado da Capes. Compensa abrir mão de um investimento para aumentar um gasto, se o objetivo é justamente controlar as contas públicas? É claro que não.
Há muito que tem que mudar na ciência no Brasil e isso merece textos à parte que talvez eu escreva no futuro. É difícil desassociar essas coisas e acho que talvez eu não tenha sido tão direto como deveria. Mas a mensagem é simples: dinheiro colocado em ciência é dinheiro investido. Tem retorno para a sociedade. Cortar isso é uma maneira de negar um futuro melhor para o país. E no imediatismo da política brasileira que se preocupa apenas com a próxima eleição e faz tudo em benefício próprio, é isso que conseguimos, a negação de futuros melhores.